Gilberto Salvador

Gilberto Salvador
Gilberto Salvador

GILBERTO SALVADOR
1946

Nasceu em São Paulo, São Paulo; Brasil.

Pintor, desenhista e professor.

Forma-se em arquitetura em 1969 pela FAU/USP, onde mais tarde atua como professor. Paralelamente aos estudos universitários, dedica-se à pintura e ao desenho. Expõe individualmente, pela primeira vez em 1965, na Galeria de Arte do Teatro de Arena em São Paulo. É premiado com a medalha de ouro no Salão de Arte Contemporânea, Campinas, em 1967, e, nas edições de 1969 e 1970, com o prêmio aquisição. Participa de quatro Bienais Internacionais de São Paulo e entre suas principais mostras individuais, destacam-se duas exposições no Masp, em 1985 e 1995. Em 1999, a escultura Vôo de Xangô é instalada na Estação Jardim São Paulo da Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô. Possui obras nos acervos de diversos museus, em São Paulo, Brasília e Londrina.

É um artista que, em suas exposições, sempre surpreende o público. Talvez ele próprio se surpreenda, pois, embora afirme não haver em sua obra grandes mudanças, mas desdobramentos, revela a cada novo trabalho uma corajosa autonomia discursiva. Assim que, para quem esperava apreciar nesta grande mostra seus quadros ou gravuras, a surpresa fica por conta da presença unicamente de esculturas. Opção essa que não constitui o marco de uma nova etapa, mas a retomada de um caminho há muito transitado.

Com uma brilhante carreira onde a experimentação sempre teve seu espaço garantido, Salvador não se apega às respostas encontradas nem às soluções dominadas. Ao contrário, está sempre pronto a questionar seu próprio caminho e a se redescobrir. Percorre as diferentes possibilidades do contexto artístico de cada momento, considerando os aspectos interessantes de cada um, mas mantendo-se fiel a uma unidade pessoal de trabalho.

No início de sua carreira, motivado pela Pop arte, produziu gravuras onde a influência do material gráfico e publicitário se fazia fortemente visível. Tal ocorreu nos anos 80, quando desenvolveu uma pintura gestual impactante, com o uso de novas tecnologias da indústria química. Assim, o artista transitou por diferentes técnicas e tendências, absorvendo experiências e consolidando seu processo criativo.

Nos anos 60, no Salão Jovem Artista do MAC e na Bienal de São Paulo, Gilberto Salvador iniciava sua trajetória, expondo ousadas peças em metal e policromia. Essas propostas, bastante próximas ao exercício da arquitetura que ele também desenvolvia na época, marcam uma experimentação que ele retoma hoje com as esculturas da presente exposição.

Os trabalhos que integraram a Bienal Internacional de São Paulo, em 1969, estavam inseridos em uma temática sobre a robótica, a partir de um texto de Isaac Assimov’, "Eu, o robô". O artista criou suas peças com formas geométricas geradas por fórmulas matemáticas e elaboradas com aço inoxidável e espelhos. Uma iluminação intermitente, que se originava na base das formas orgânicas pintadas de vermelho, à semelhança de sangue, e que se espraiava pela área de instalação das mesmas estabelecia um pulsante contraste com as formas geométricas sobre elas. O ritmo da luz traduzia uma pulsação irregular, como se um elemento vivo e orgânico brotasse de máquinas cibernéticas. O vermelho das superfícies pintadas na parte interna das esculturas parecia espalhar-se, simulando manchas de sangue sobre o piso, elaboradas com plásticos, seguindo uma ordem seqüencial, como que emanava de cada escultura.
As criações expostas no Salão Jovem Artista do MAC eram constituídas de estruturas de aço inoxidável com as superfícies côncavas e convexas, no interior das quais se inseriam pequenas peças esféricas ou cúbicas de diversas cores. Os trabalhos com superfícies de aço inoxidável polido apresentam um dualismo pelo espelhamento das superfícies, atuando no sentido de enfatizar a reflexividade, absorvendo o ambiente em que se encontram e diluindo quase por completo a obra criada. As superfícies se refletem umas nas outras, levando ao aparecimento de geometrias que não fazem parte do formato físico da obra. O que se mantém visível é a trama interna dos cubos e das esferas coloridas, a indicar as formas da escultura e do espaço. O importante nesses trabalhos, entretanto, não é a seleção de um material a partir de um avanço da tecnologia do metal naquele momento, mas a linguagem a serviço da qual esse vocabulário foi posto em ação.

Nessas obras o artista desenvolvia a relação geométrico/orgânico que pontuou sempre sua trajetória. Sua presença na atual mostra, enfatiza a existência de um germe latente que se manifesta nesse momento com toda a sua maturidade. As obras atuais, de certa forma, mantêm o espelhamento das superfícies utilizado nos trabalhos da década de 60. O material agora explorado, entretanto, são lâminas de madeira tratadas com resinas coloridas em acabamento de alto brilho. A cor unifica os elementos dispersos do trabalho, oferecendo-lhe uma coerência interna, e o brilho da superfície pintada estabelece um elo imagético com seus componentes concretos. O refinamento da composição se aprimora no desdobramento dos planos, organizados em torno de movimentos helicoidais de segmentos, todos eles diferenciados entre si.

São peças que se desdobram no espaço, mantendo uma unidade formal quase suspensa. Se, em um primeiro olhar, elas parecem construídas de forma modular, nos seguintes se evidenciam compostas de diversos e diferenciados fragmentos, como se uma figura estilhaçada se recompusesse para nos permitir observar detidamente suas partes. Fugindo ao geométrico racional, Gilberto Salvador constrói unidades que estimulam a reflexão pelo instável, pelo ambíguo e pelo surpreendente.

 

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